Capítulo 05: As cinzas do último fogo
Eu não nasci. Fui cuspido. Minha mãe morreu com as mãos ainda entre as pernas, tentando segurar o que o mundo queria expulsar. Meu pai? Nunca o vi. Diziam que era um ceifador velho, ou um espírito das montanhas — ou um dos próprios dragões disfarçados de homem. Talvez tudo isso fosse verdade. Talvez nada fosse. Fui criado entre cinzas. Uma vila encravada no deserto de farod, onde o frio entra nos ossos antes mesmo do ar chegar nos pulmões. Ali, as crianças aprendiam cedo que chorar era desperdício de calor. Eu apanhava por respirar alto. E por sonhar. Me lembro de uma vez em que disse, com cinco invernos de idade, que vira um dragão nos céus, feito sombra entre nuvens. A velha que me acolhia me deu com o cabo da colher de ferro. — Não se fala o nome das pragas — ela sussurrou. O sangue escorreu. A lembrança ficou. Tinha algo em mim que os outros sentiam. Medo, talvez. Ou presságio. A natureza também sabia. Os lobos não me atacavam. Os corvos ...