Capítulo 02: A Chama Branca

 

Eu nunca vi o céu azul.

Não sei como é sentir o calor do sol tocando a pele sem a barreira sufocante das nuvens. O mundo acima sempre foi um amontoado de cinza e sombra, um teto de chumbo que pairava sobre nossas cabeças, pesado, opressor, como se o próprio firmamento tivesse desistido de existir. Desde que nasci, o céu foi um cadáver enforcado sobre a terra, oscilando sem vida, sem brilho.

Dizem que já foi diferente.

Os velhos, aqueles que sobreviveram à Queda, falam de um tempo em que a luz era real. Um tempo em que a manhã nascia em ouro líquido, derramando-se sobre campos verdes como esmeraldas. Diziam que os ventos não eram carregados de poeira e fuligem, mas de perfumes de flores e resina de árvores imensas, que o mundo era banhado em cores que a Chama nos ensinou a esquecer.

O azul, por exemplo.

Ouvi histórias sobre ele. Um vasto mar invertido, suspenso no alto, sem limites, profundo como um sonho. Algumas lendas diziam que os dragões nadavam nesse mar de ar, que suas asas rasgavam o azul como peixes dourados quebrando a superfície de um lago calmo.

Mas ninguém fala dessas histórias agora.

Os que ousaram contar esses segredos tiveram as línguas cortadas ou foram lançados às chamas sagradas. A Chama Branca decretou que a Queda foi necessária. Que os dragões eram monstros, e que seu desaparecimento era o preço da paz.

Mentiras.

A verdade era dura, cortante como a lâmina dos inquisidores: a terra era um deserto de poeira e ossos. As ruas de Rhenkar eram rachadas, os edifícios gastos pelo tempo e pela fome, suas pedras impregnadas de lamentos que ninguém mais ouvia. A água era pouca, o alimento era menos ainda. Os ventos sopravam secos, carregando o cheiro de coisas mortas. Nada crescia. Nada prosperava.

Os mais velhos sussurravam que o mundo morreu junto com os dragões.

Eu nunca acreditei neles.

Talvez porque acreditar significasse enfrentar o fato de que vivíamos em um túmulo sem epitáfio. Um lugar onde a vida não era nada além de uma sentença adiada.

Meu nome não importa.

Se um dia importou, não me lembro.

Meus pais foram condenados por bruxaria antes que eu pudesse guardar seus rostos. Algumas noites, tento reconstruí-los em minha mente. Olhos? Não sei a cor. Vozes? Esquecidas no tempo. Tudo que restou foi um eco distante, um murmúrio apagado pela cidade e pelo açoite da fome.

Cresci nas ruas de Rhenkar, uma das cidades-estados sob a bênção — ou maldição — da Chama Branca. Aprendi cedo que compaixão era fraqueza e que misericórdia era um luxo para os mortos. Quem hesitava, perecia. Quem confiava, era traído. Quem falava demais, desaparecia.

Sobrevivi roubando, mentindo, rastejando como um rato pelos esgotos que fedia a ferrugem e corpos esquecidos. Vi crianças devorarem ratos vivos para evitar a fome. Vi mães venderem os próprios filhos aos inquisidores para garantir mais um dia de pão. Vi homens beberem do esgoto para acalmar a sede, apenas para caírem mortos horas depois.

Era um mundo podre.

Mas era o único mundo que conhecíamos.

E então veio a Chama.

Eles me encontraram morrendo.

O frio cortava como dentes de ferro, e eu tremia, encolhido em um beco, esperando que a morte chegasse como uma sombra misericordiosa. Eu havia roubado de um homem errado. Fui espancado até cuspir sangue, e não tinha forças para correr. Meu corpo estava quebrado, a febre queimando por dentro como um fogo invisível.

Então, uma luz branca.

Eles vieram vestidos com suas túnicas puras, carregando o símbolo sagrado bordado no peito: uma chama tremeluzente, cercada por raios. Palavras de conforto deslizaram de suas bocas como um veneno doce.

— A Chama acolhe aqueles que buscam redenção.

Eu não buscava nada além da morte.

Mas a fome ensina a obediência, e a obediência traz a salvação.

Eles me ergueram, cuidaram de minhas feridas, colocaram uma arma em minhas mãos e me deram um propósito. Ensinaram-me a rezar, a segurar a lança corretamente, a obedecer sem questionar. Disseram-me que a dúvida era um verme que corrompia a fé. Disseram-me que tudo que existia fora da Chama era heresia.

Disseram-me que, um dia, eu veria o céu azul.

E eu acreditei.

Porque acreditar era mais fácil do que aceitar que eu não passava de mais um tijolo no muro que mantinha esse mundo em trevas.

De alguma forma, segurar uma lança e vestir a túnica branca com o brasão sagrado me fez sentir menos insignificante.

Mesmo que fosse só ilusão.



A Prisão dos Hereges



Os corredores do forte eram frios, iluminados por tochas que lançavam sombras trêmulas nas paredes de pedra. O cheiro de incenso queimado se misturava ao suor e ao ferro oxidado.

— Você demorou — rosnou um dos guardas ao me ver entrar. Ele era baixo, corpulento, a cicatriz cruzando sua boca o fazia parecer estar sempre sorrindo. Chamavam-no de Gorth, mas eu o chamava de verme, em silêncio.

— Fui chamado. O Inquisidor me quer na cela.

Gorth riu, um som úmido e quebradiço.

— Então é seu dia de sorte. Vai ver a coisa de perto.

"Coisa". Foi assim que chamaram o prisioneiro. Como se ele não fosse humano. Talvez não fosse.

Desci os degraus escorregadios, sentindo a umidade penetrar minhas botas. O corredor da prisão era estreito, abafado, como se as paredes quisessem se fechar ao nosso redor. O cheiro de fezes e carne podre era forte, mas não me incomodava mais. Aprendi a respirar pela boca.

Na última cela, acorrentado à parede, estava o condenado.

Ele era jovem. Mais jovem do que imaginei. Seus cabelos eram negros, sujos de sangue seco, a pele pálida marcada por hematomas. Mas o que me fez hesitar foram seus olhos.

Eles eram dourados.

Ninguém tinha olhos assim.

Um calafrio percorreu minha espinha.

O Inquisidor estava lá, uma figura alta vestida no manto branco e dourado da Chama. Seu rosto estava oculto pela máscara de ferro esculpida com runas sagradas. Ele se virou para mim.

— Você acredita na Chama, filho? — Sua voz era calma, sem pressa.

Engoli em seco.

— Sim, senhor.

Ele assentiu, satisfeito.

— Então testemunhe.

Meus dedos apertaram o cabo da lança.

O Inquisidor se ajoelhou diante do prisioneiro e ergueu uma lâmina curta, fina como uma agulha.

— O que você é? — perguntou, encostando o aço contra a clavícula do jovem.

O prisioneiro não respondeu.

O Inquisidor empurrou a lâmina lentamente.

— O que você é?

O jovem respirou fundo, trêmulo. Seu corpo se contraiu, mas ele não gritou.

O metal deslizou para dentro da carne.

— Diga.

— Eu… — A voz do prisioneiro saiu rouca, quebrada. Seus olhos febris encontraram os meus. — Eu sou um erro.

A lâmina se aprofundou.

— Errado.

O jovem arfou, dentes cerrados.

O silêncio que veio depois foi mais pesado que qualquer prece.

O Inquisidor tirou a lâmina e limpou-a no manto branco. Virou-se para mim.

— Você sabe por que ele está aqui?

Neguei com a cabeça.

— Magia.

A palavra soou como um veneno no ar.

Meus músculos enrijeceram.

O Inquisidor se ergueu, andando lentamente ao redor do prisioneiro.

— Ele não conjurou fogo, nem invocou demônios. Mas ele sonhou. Ele falou de tempos que não existem mais. Falou sobre o que não deve ser lembrado.

A lâmina roçou a pele do prisioneiro outra vez, dessa vez ao longo do braço.

— E nós não permitimos sonhos.

O sangue escorreu, grosso e quente.

O jovem fechou os olhos, a respiração trêmula. Seu rosto estava pálido, mas ainda não quebrado.

O Inquisidor ergueu o rosto para mim.

— Termine o serviço.

Meu estômago se revirou.

— Senhor?

Ele apontou para o condenado.

— Se quer provar sua fé, prove com aço.

Minhas mãos suavam. Eu já havia matado antes, mas nunca assim. Nunca um homem acorrentado.

O prisioneiro abriu os olhos.

Ele não suplicou. Não chorou. Apenas me encarou.

A lança pesava em minhas mãos.

— Vá em frente — disse o jovem, num sussurro.

O Inquisidor esperou.

O ar parecia mais denso.

Meus dedos apertaram o cabo da lança.

Então o prisioneiro sorriu.

Não foi um sorriso de medo ou dor. Foi algo mais profundo. Algo que fez meu coração parar por um instante.

— O fogo ainda vive — ele murmurou.

E então, antes que eu pudesse reagir, os olhos dele se acenderam.

Luz dourada explodiu de suas pupilas.

O Inquisidor gritou.

O cheiro de carne queimada encheu o ar.

A Chama Branca, por toda sua glória, não esperava por isso.

E, pela primeira vez na vida, vi fogo de verdade.

A lâmina tremeu em minha mão.

Por um instante, o mundo pareceu silenciado. A luz dourada que explodia dos olhos do prisioneiro não era apenas brilho. Era algo mais antigo, mais profundo, uma chama que não deveria existir, não aqui, não agora.

O Inquisidor cambaleou para trás, as mãos crispadas na máscara de ferro como se tentasse arrancá-la. Seu grito era um som grotesco, como metal rangendo contra metal. As runas esculpidas em seu traje brilharam, repelindo o calor que se espalhava pelo ar.

O fogo vivo cresceu, serpenteando pelo corpo do condenado como se o reclamasse. Correntes crepitavam, aquecendo-se até ficarem incandescentes. O cheiro de carne queimando se misturou ao fedor de ferro oxidado, suor e fezes que impregnavam a cela.

Mas o condenado não gritava.

Ele apenas sorria.

— O fogo ainda vive — ele repetiu, e sua voz não era mais a de um homem fraco.

Era um trovão abafado, um eco de algo que não pertencia a este mundo cinzento e sufocado.

Minhas pernas fraquejaram. O calor era insuportável. A lança escorregou de meus dedos suados, o impacto contra o chão ecoando como um sino fúnebre.

Gorth praguejou e deu um passo para trás. Pela primeira vez, vi medo em seus olhos. Ele sacou a espada com mãos trêmulas, mas não avançou. Nenhum de nós o fez.

O fogo rugia.

A cela que antes era sufocante tornou-se um inferno fechado. O metal das correntes chiou, um som agonizante, antes de ceder com um estalo seco. As algemas se partiram. O prisioneiro ergueu a cabeça, os cabelos negros flutuando como cinzas ao vento.

Eu quis correr. Quis me ajoelhar e rezar à Chama Branca. Quis gritar. Mas estava preso ali, paralisado, minha mente incapaz de compreender o que via.

Então o Inquisidor recuperou a voz.

— Herege!

Sua mão se ergueu em um gesto sagrado. As runas em seu traje pulsaram, e uma rajada de ar frio varreu a cela, tentando sufocar o fogo. O vento uivou, carregado com as orações proibidas que apenas os purificadores da Chama podiam entoar.

Mas era tarde demais.

O prisioneiro já não era apenas um homem.

O fogo se fundiu à sua pele, à sua carne. Ele abriu os braços, e labaredas se espalharam como asas invisíveis. As chamas dançavam, não como uma força caótica e indomável, mas com propósito, com fome.

— Vocês queimaram tudo — disse ele, sua voz carregada pelo calor que fazia as paredes suarem. — Apagaram as histórias, apagaram os nomes, apagaram o próprio céu.

Ele deu um passo à frente, e a pedra sob seus pés estalou.

— Mas o fogo nunca esquece.

O Inquisidor rosnou uma prece, e o chão sob nós tremeu. Mas eu já não ouvia direito. Meu coração martelava contra as costelas. Meu corpo gritava para fugir.

Gorth foi o primeiro a ceder. Ele se virou, disparando pelos corredores, o metal de sua armadura tinindo a cada passo apressado.

— Covarde! — rugiu o Inquisidor.

Mas ele mesmo tremia.

Eu vi.

O condenado ergueu a mão. Uma bola de fogo branco surgiu em sua palma. As chamas bruxulearam, vivas, quase… conscientes.

Por um segundo, ele hesitou. Seus olhos dourados recaíram sobre mim.

Eu não sei o que viu.

Não sei o que reconheceu em meu rosto.

Mas, ao invés de me matar, ele se virou para o Inquisidor.

E o fogo caiu como um julgamento divino.

O grito do Inquisidor ecoou por todo o forte.

O fogo não consumiu apenas sua carne. Ele devorou sua fé, suas orações, seus ossos. Sua máscara derreteu sobre sua pele como cera quente. As runas em seu traje brilharam uma última vez antes de se apagarem para sempre.

Então ele caiu, transformado em cinzas antes mesmo de atingir o chão.

O prisioneiro respirou fundo.

O fogo se dissipou aos poucos, deixando apenas um brilho residual em sua pele. Seu peito subia e descia de maneira irregular, como se o peso do que acabara de fazer o esmagasse tanto quanto esmagava a mim.

O silêncio era absoluto.

Ele me olhou mais uma vez.

E então sorriu.

Depois virou-se e caminhou para fora da cela, deixando pegadas enegrecidas no chão de pedra.

Eu não o segui.

Não consegui.

Meus joelhos cederam, e eu caí sobre o chão úmido, o cheiro de fuligem queimando minha garganta.

Lá fora, o alarme começou a soar.

Mas eu sabia.

Era tarde demais.

O fogo havia retornado ao mundo.

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