Capitulo 03: Cinzas no Peito
Quando se nasce no pó, o primeiro cheiro que se aprende a amar é o da terra seca misturada ao suor velho.
Não aquele suor limpo de quem trabalhou. Mas o ranço ácido que se acumula em pele que nunca viu sabão. Queimada pelo sol, rasgada por açoite.
A segunda coisa é o som do couro batendo na carne.
E não importa o quão forte você tente esquecer — a memória da dor tem um cheiro.
Ferro quente.
Sangue fresco.
Pele queimada.
Naquela manhã, senti tudo isso antes mesmo do sol subir.
O chão de terra batida ainda estava úmido da urina noturna de alguém que não conseguiu segurar.
— Levanta, porco! — a voz do capataz entrou cortando como lâmina cega.
Rasgada. Grossa. Cheia de raiva que não era só dele. Ele carregava a fúria dos que mandavam em cima, e despejava sobre nós como se fossem baldes de óleo fervente.
O bastão de ferro bateu nas grades com estalo seco.
Depois, no meu ombro.
Uma. Duas vezes.
Eu não gritei.
Aprendi cedo que grito é convite.
Choro?
Chorar é luxo.
Fazia anos que não chorava. Nem mesmo quando a dor era funda, daquelas que mordem por dentro. Eu só rangia os dentes, olhava pro chão e deixava passar.
As cicatrizes nas costas contavam histórias. Cada uma era uma lembrança que o corpo se recusava a esquecer.1
Corte longo abaixo da omoplata esquerda — primeira tentativa de fuga.
Marcas paralelas na lombar — punição por desacato.
Círculo queimado no ombro — símbolo dos “abençoados pela servidão”, a marca que nos tornava propriedade.
Dizem que cicatrizes são mapas.
As minhas? Nenhuma levava pra liberdade.
Só me diziam onde nunca mais pisar.
Levantei devagar. A perna esquerda formigava. Dormência da noite mal dormida sobre pedra. Mas eu não me dei ao luxo de mancar.
Mancaria depois.
Quando ninguém visse.
Meus pés encontraram o chão duro, rachado, onde pequenas baratas corriam para dentro das frestas.
Lá fora, as sombras da aurora ainda lambiam os muros altos de Farok Duhn, aquela prisão disfarçada de cidade.
No ar, poeira e fumaça.
Sempre fumaça.
De fogueiras. De corpos. De medo.
O dia prometia mais do mesmo:
Puxar os barris de água da cisterna, mesmo que as cordas cortassem a carne das mãos já feridas.
Carregar pedras pra muralha, que vivia caindo com o vento.
Recolher os corpos dos que morriam de fome durante a noite, sempre com os olhos abertos, como se ainda buscassem alguma explicação.
E talvez — se a sorte sorrisse — não morrer hoje.
As correntes que me prendiam aos pulsos tilintavam com cada passo. A gente aprendia a andar sem fazer barulho, mesmo com ferro nos ossos.
Silêncio era tudo.
Fazia parte de nós como o sangue.
Atravessando o pátio, vi outros como eu.
Crianças de olhos vazios, homens curvados como se carregassem o mundo nas costas. Mulheres que já não falavam. Que só murmuravam para os próprios filhos — quando não tinham sido levados.
Na fileira para o racionamento, o cheiro era pior. Uma mistura de vômito, suor e coisa morta.
O pão era duro.
A água tinha gosto de pedra.
Mas todo mundo comia.
Quem não comia, morria.
Quem reclamava, sumia.
— Mais rápido, lixo! — gritou o soldado da Chama Branca.
Sempre eles.
Encapuzados.
Olhos escondidos por máscaras metálicas com runas gravadas a sangue.
O símbolo flamejante do sol partido no peito — metade justiça, metade ruína.
Diziam que eram sagrados.
Que carregavam a vontade dos deuses.
Mas todo mundo sabia que só carregavam o chicote e o direito de matar.
Lembro do dia em que deixei de ser criança.
Chovia cinza. Isso acontecia às vezes, quando o vento trazia os restos dos que a Chama Branca queimava nas cidades ao norte. Eu e meu irmão corríamos entre os becos de terra vermelha, catando ratos e pão embolorado.
Ele tropeçou. A guarda viu.
— Magia — disseram.
Ajoelharam-no no barro. Rasgaram a camisa. Esquentaram o ferro.
Eu segurei a mão dele. Disse que ia passar. Que depois a dor ia sumir.
Mas ele não gritou. Nem uma vez.
Foi ali que percebi que dor e silêncio são irmãos. E que gente como nós só sobrevive se aprende a amar os dois.
Na cidade baixa de Farok Duhn, não existe “depois”. Só existe o agora. O próximo empurrão. A próxima ordem. O próximo pedaço de pão seco, se houver.
Eu puxava a carroça com os barris de água quando Thammi me encontrou.
— Kael! Espera aí!
Magrinha, olhos de rato, sorriso de quem nunca conheceu paz. Tinha os dedos ágeis e a língua mais rápida que qualquer guarda.
Ela correu até mim e jogou algo no meu bolso de pano puído.
— Roubei um punhado de ervas lá da ala dos enfermos. Dá pra trocar por carne. Carne de verdade.
— Podem nos matar.
— A gente já tá morto, não tá? — e deu um sorriso. Aqueles dentes tortos e sujos eram mais vivos do que qualquer coisa que eu tinha.
Ela ria como se não soubesse o que era viver com medo. Talvez não soubesse mesmo. Talvez já tivesse aceitado que medo era parte do corpo, como um dedo extra ou uma mancha no olho.
Eu não ria.
Desde que minha mãe desapareceu numa caravana dos “purificadores” da Chama, nunca mais soube o que era rir. Ela me dizia que o mundo era cinza porque os dragões tinham morrido. E que, um dia, o céu voltaria a ser azul.
Mentiras.
O céu era cinza porque os tiranos assim quiseram. E o azul… talvez nunca tivesse existido.
Naquela noite, acordei com o peito queimando.
Não de febre. Não de doença. Algo… estranho.
Como se houvesse brasas dentro do meu corpo. Mas não me consumia. Só… ardia.
Era suportável, mas inquietante. Respirei fundo, e o ar pareceu morno demais.
Talvez fosse só fome. Ou as ervas de Thammi.
Tentei dormir de novo. Mas sonhei.
Sonhei com chamas. Com asas negras cortando o céu. Com rochas flutuando sobre lagos de lava. E com uma voz — profunda, cavernosa — sussurrando coisas que eu não entendia.
Acordei suando. O peito arfando.
O frio da madrugada ainda batia, mas meu corpo parecia um forno.
Olhei minhas mãos. Estavam trêmulas. Mas nada de diferente. Nada de mágico.
Afinal, magia não existe. É isso que dizem.
É o que nos ensinaram.
Na manhã seguinte, encontrei um rato morto na carroça. Não era incomum. Mas ele estava… queimado. Como se tivesse se enrolado em brasas durante a noite.
— Kael! — o capataz me puxou pelo colar de ferro. — Você andou brincando com fogo, moleque? Hein?
— Não, senhor.
Ele me encarou. Olhos pequenos, cor de carvão. Buscando algo em mim.
— Se eu descobrir que tem magia nesse barraco, vou cortar seus dedos, um por um. Entendeu?
— Entendi.
E entendi mesmo.
Qualquer coisa diferente aqui…
Significa morte.
No trabalho, minhas mãos queimavam quando tocavam pedra aquecida. Mas eu continuava.
As outras crianças tremiam, algumas desmaiavam. Eu não.
O calor, de algum jeito, parecia… familiar. Não confortável. Mas tolerável.
Thammi me viu encarando o céu.
— Tá procurando o azul que sua mãe prometeu?
— Tô tentando lembrar se ele já existiu.
Ela riu.
— Se existiu, foi só nos livros. E os livros queimaram junto com os mentirosos.
Ela se afastou correndo, como sempre fazia.
Mas eu fiquei ali. Olhando o céu cinza, tentando entender por que aquele calor dentro de mim aumentava toda vez que pensava no passado.
Sou só um escravo.
Kael. Um nome curto, fácil de esquecer.
Mas às vezes…
Só às vezes…
Sinto que tem algo em mim tentando lembrar.
Algo que sussurra nos meus sonhos.
Algo que arde quando me machucam.
Algo que espera.
Mas eu não sei o quê.
Eu não sabia dizer se estava ficando doente ou se finalmente começava a enlouquecer, como tantos outros antes de mim.
Na noite seguinte, sonhei com olhos dourados. Não eram olhos humanos. Eram maiores que minha cabeça, afundados em escamas negras, como pedra molhada, como carvão vivo. Eles me observavam do alto de uma montanha onde tudo tremia — o céu, a terra, o tempo. E então, uma asa cobriu tudo, e o mundo queimou.
Acordei gritando, o suor me escorrendo em rios quentes, e com um gosto de ferro na boca. Minhas unhas tinham arranhado a parede de pedra da senzala. Sangue e poeira sob os dedos.
Thammi me viu de manhã e arregalou os olhos.
— Você tá com febre ou tá possuído?
— Só tô cansado.
Ela se afastou, sem dizer mais nada, mas de tempos em tempos, me lançava olhares como se eu fosse explodir a qualquer momento. Talvez fosse.
Mais tarde, carregando pedra pro novo altar da Chama Branca — sempre eles, sempre construindo, sempre queimando —, meu corpo começou a vibrar. Não de fora pra dentro. Era algo interno, como se minhas costelas tremessem. Como se algo ali dentro estivesse... se esticando.
Um dos rapazes que puxava a carroça comigo tropeçou. A pedra rolou, esmagando seu pé. Ele gritou. O capataz veio, irritado, e ergueu o bastão de ferro.
Eu me coloquei no caminho.
Sem pensar. Sem querer.
O ferro me acertou na têmpora. A dor foi instantânea, mas diferente. Não queimava. Não latejava. Era como se algo dentro de mim absorvesse aquilo, como se dissesse: isso não é nada.
Levantei. Com sangue no rosto. O capataz hesitou. Era velho, mas não estúpido. Ele viu meus olhos. Eu também senti. Algo neles havia mudado. Um calor aceso, pequeno, mas faminto.
— Mais um movimento desses e corto sua língua. — disse ele, e cuspiu no chão. — A Chama não tolera desordem. Nem heresia.
Heresia.
Até hoje não sei o que isso quer dizer de verdade. Só sei que quando alguém é chamado de herege... é questão de tempo até o corpo sumir numa fogueira.
Na senzala, antes da noite cair, fiquei deitado no chão de barro. O cheiro de urina e suor impregnava tudo. Mas havia algo no ar... diferente. Uma eletricidade. Uma inquietação.
Senti o peito quente de novo. Mais do que nunca.
E então, ouvi.
Uma voz. Grave. Profunda. Dentro da minha cabeça.
— Durma, criança de cinzas. A chama precisa crescer em silêncio.
Sentei de súbito. Olhei ao redor. Ninguém havia falado. Ninguém além... de mim?
— Quem está aí?
Nenhuma resposta.
— Tá falando com quem agora, Kael? — sussurrou Thammi do canto da senzala.
— Com ninguém.
Ela suspirou, baixinho.
— Você vai acabar sumindo como os outros...
Na manhã seguinte, nos mandaram para as cavernas.
Essas eram as tarefas mais perigosas — onde desmoronamentos matavam mais escravos que fome. Mas era melhor do que ser escolhido para o “fardo da purificação”. Isso sim era o fim.
Carregávamos tochas. O cheiro das rochas era seco, abafado, e o ar rarefeito. Mas quanto mais fundo, mais quente se tornava. E, estranhamente, mais confortável pra mim.
O suor dos outros era desespero. O meu... era alívio.
Paramos diante de uma abertura colapsada. O capataz nos ordenou que retirássemos as pedras.
— Abram caminho para o novo templo! — ele dizia.
Enquanto empurrava uma rocha maior, ela se quebrou com facilidade anormal sob minhas mãos. Era como se o calor do meu corpo a tivesse amolecido.
Ninguém percebeu. Só eu. E a voz. De novo.
— Não é tempo ainda. Mas logo. Logo.
A mão tremeu. As veias do braço estavam negras. Não de sujeira. Era como se houvesse carvão ardente sob minha pele.
Olhei para Thammi. Ela cantarolava baixinho uma canção proibida. Nem notava o que acontecia. Melhor assim.
De volta à superfície, a fome me tomou como uma garra.
Comi o pão mofado de um outro garoto. Ele reclamou. Empurrou-me.
Reagi.
O soco saiu antes de eu pensar. O som do nariz dele quebrando ecoou alto. Todos pararam. Até o capataz.
Ele correu até mim com o bastão erguido. Eu não fugi.
Quando o ferro desceu, algo... mudou.
Minha pele brilhou, por um segundo. Como se uma centelha tivesse dançado sobre meu ombro. O bastão ricocheteou como se tivesse batido numa parede de metal quente.
Silêncio.
— Isso foi... magia? — alguém murmurou.
O capataz me encarou. Seus olhos diziam tudo: eu seria denunciado. Executado. Queimado.
Eu corri.
Não sabia pra onde. Não importava. O chão parecia pulsar sob meus pés. As veias, em brasas. A cabeça, um tambor.
Corri até a muralha quebrada da cidade baixa. Me escondi nos escombros. Respirei. Tentei entender o que havia acontecido.
Mas tudo que ouvi foi o som abafado da voz que, agora, sussurrava o tempo todo.
— Você não é só carne. Você é memória. É chama adormecida. E vai acordar.
Eu não entendi.
Mas algo dentro de mim... sim.



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