Capítulo 04: O Céu Azul

 A pedra gemeu sob minhas botas enquanto eu corria.

Não por medo. Nunca por medo.

O medo é para os fracos. Para os esquecidos. Para os hereges que ardem sob o toque da nossa chama sagrada. Eu corri porque a verdade escorria por entre nossos dedos — e ela vestia a pele suja de um escravo.

— PARA OS PORTÕES! — minha voz cortou o corredor, fazendo os acólitos estremecerem. — ELE ESTÁ FUGINDO!

Atrás de mim, os sinos ainda rugiam seu canto de alerta. O eco do bronze sagrado vibrava nas entranhas da Fortaleza da Redenção como tambores de guerra.

O corredor fedia a fumaça e sangue fresco. O rastro dele ainda estava quente. Não era possível... ninguém escapava daquele lugar. Nem com as pernas, nem com a alma. Mas ele... aquele menino... não era um menino. Os olhos... quando me fitou, era como se cem gerações me julgassem de volta.

Desci as escadarias e empurrei a porta com o ombro. A luz me feriu os olhos — a luz. Mas não a usual, cinzenta, pálida, morta.

O céu...

— Em nome da Chama...

O céu estava azul.

Azul. Azul.

Caí de joelhos, os olhos presos naquele absurdo. Era impossível. O céu sempre fora coberto pelas cinzas — foi o preço por nossa vitória. Foi o que nos ensinaram. O que pregamos. Desde a queda dos dragões, desde a última lágrima cuspida em fogo, o mundo estava sob véu eterno.

E agora...

O azul cortava as nuvens como lâmina limpa.

— Irmão Terkon! — um acólito surgiu ofegante. — O prisioneiro, ele... os guardas foram mortos. Alguns... queimados.

Me virei lentamente, os músculos enrijecidos pelo terror que eu não ousava nomear.

— Queimados? — repeti.

— Sim... não restou carne. Só ossos. Cinzas.

Minhas mãos tremeram.

Fechei os olhos. E ali, nos recantos escuros da minha memória, ouvi outra voz. Antiga. Encardida como pergaminho velho. A voz da velha cega, trancada no Salão da Penitência — a que dizia ver demais, mesmo sem olhos.

"Ele dorme no coração partido... onde a pedra chora e o aço quebra... Ele sonha sob o peso das correntes, e quando o mundo lembrar como é azul o céu..."

"Então o último dragão acordará."

— Busquem os arquivos! Quero os registros da Velha Sibilante! Quero tudo sobre a Profecia do Coração Ardente! — gritei, cuspindo ordens como lâminas.

— Irmão Terkon, com todo o respeito... isso são heresias enterradas. Escritos que deveriam ter sido queimados há...

— ENTÃO QUE TRAGAM AS CINZAS! — rugi.

O acólito recuou. Seus olhos, antes cheios de obediência cega, agora tremiam. Mas ele correu.

Eu voltei meus olhos ao horizonte.

E vi.

Lá longe, entre os muros da cidade e o deserto negro, um vulto se movia. Pequeno. Mas havia fogo onde seus passos pisavam.

Ele não tinha nome nos registros. Apenas o número: 438-Z.

Mas eu lembrava dele.

Pequeno. Magro. Olhos fundos como poços secos. Nunca falou. Nunca chorou. E, no entanto, os guardas evitavam seu olhar. Diziam que era... estranho. Que mesmo nas surras, nunca desviava o rosto.

Agora entendo o que era.

Ele era um portador.

Uma casca.

Uma semente adormecida de um horror que julgamos extinto.

Voltei para a cela de onde ele fugira. O cheiro de queimado ainda enchia o ar. O chão de pedra estava rachado. Um símbolo — antigo, proibido — queimado na pedra. Um círculo envolto em garras.

Dragônico.

Fechei os olhos.

A verdade ardia mais que o fogo.

Eu me lembrava de quando era noviço. Quando li, às escondidas, os textos das Guerras do Fim. Os relatos dos Ceifadores. Homens que venderam a alma para destruir os de sangue quente. Homens que andavam com lâminas forjadas em ossos de dragão, e usavam magia proibida — aquela que sangra os céus.

Diziam que o último dragão foi caçado. Encurralado nas montanhas do Norte, e queimado vivo.

Mentira.

Eles sabiam. Sempre souberam.

Prendê-lo... trancá-lo... selá-lo. Foi isso que fizeram.

E usaram um menino como prisão.

Voltei à Torre da Vigília.

Os olhos da cidade estavam lá, sempre atentos.

Com o grimório velho nas mãos, comecei a reler a profecia.

"O que arde não morre. O que dorme, sonha. E sonha com a ruína dos homens."

"Quando a chama deixar de ser branca, e o céu voltar a ser azul, então a besta renasce, não em ossos, mas em carne de gente."

— Irmão Terkon... — uma voz feminina me chamou à porta. Era Irmã Velna, das Sibilas de Cinza. — Recebemos relatórios de que plantações brotaram onde ele passou. Mas... cresceram e murcharam em minutos. E havia pegadas... carbonizadas.

— Então está começando.

— O quê?

Fechei o livro com violência.

— O Fim. O verdadeiro Fim. A besta voltou. E carrega o mundo dentro do peito.

Na noite seguinte, convoquei o Conclave. Irmãos, Sacerdotes, Ceifadores, os poucos que restavam. Mostrei os sinais. Os registros. As palavras da Sibila. A marca na cela.

— Isso é loucura! — bradou Irmão Valh. — São superstições de velhas coxas murchas! Dragões estão mortos. Mortos! Nós os queimamos!

— Então me explique o céu — retruquei. — Me explique o fogo que andou. Me explique a profecia. Me explique o medo nos seus olhos!

Silêncio.

Eles sabiam.

Sempre souberam.

A Chama Branca foi fundada para proteger a verdade. Mas nos tornamos seus carcereiros. E agora... agora o selo havia se rompido.

— E o que sugere? — perguntou Velna.

— Caçamos o portador.

— E se ele... despertar?

— Então matamos antes que lembre quem é.

Na manhã seguinte, marchamos.

Mil soldados. Cem cavaleiros. Quarenta ceifadores antigos. Levávamos lanças de prata, amuletos de sangue, pergaminhos de selamento.

No deserto, a trilha era clara. As areias estavam vitrificadas.

E então vimos.

No topo de uma colina de pedra, ele estava.

Kael.

Ou o que restava dele.

O menino tinha os olhos vazios, mas havia algo crescendo dentro deles. Uma luz dourada. Uma febre. Como se carregasse um sol por trás da pele. Estava de pé, sem armas. Descalço. As correntes ainda presas nos pulsos.

— VOCÊ NÃO PERTENCE A ESTE MUNDO! — gritei. — É UM ERRO! VOLTE AO PÓ!

Ele não respondeu.

Apenas ergueu o olhar ao céu.

E sorriu.

O chão tremeu.

Não me lembro do que aconteceu depois com clareza.

Luzes. Gritos. Fogo.

O som do mundo se abrindo.

Vi homens derreterem. Vi espadas virarem poeira. Vi a areia subir como muralha viva. E no centro de tudo... asas. Imensas. Negras. Ardentes. Feitas de tempo e fúria.

Ele não era mais um menino.

Ele era uma lembrança que queimava.

E nós... nós éramos o esquecimento.

Escrevo isso das ruínas da Fortaleza. Restamos poucos. E agora sei: a Chama Branca mentiu. Sempre mentiu. Por medo. Por poder. Por fé.

Mas ele não se importa.

Ele não quer tronos.

Ele quer lembrar ao mundo que o céu já foi azul.

E que o fogo não perdoa.

O deserto virou vidro. Os homens viraram vultos. E o menino... o que carregava o coração da fera... ele desapareceu. Como fumaça.

Mas ele não havia fugido. Não era mais um prisioneiro. Era um presságio de carne.

E presságios não fogem.

Eles esperam a hora certa de matar.

Três noites se passaram desde o Despertar. Não preguei os olhos. Nem uma vez. A cidade entrou em estado de jejum. O medo alimentava os famintos. E os famintos alimentavam a fé.

Eu sabia o que precisava ser feito.

Havia um homem que todos haviam esquecido.

Esquecido... porque era melhor assim.

Mas eu lembrava dele.

O Último Ceifador.

O Filho do Vazio.

Chamavam-no de Mahrak.

Dizia-se que ele podia caminhar entre o mundo dos vivos e o plano das bestas — onde os dragões dançavam em sonhos eternos. Diziam que lutou no último cerco, quando a Serpente de Três Bocas caiu. Que selou a besta-mãe com as próprias veias. Que se exilou depois, não por covardia… mas porque viu o que viria depois da vitória.

E não quis mais fazer parte.

Demorou dois dias para cruzar as terras áridas do Norte. O vento uivava como criança doente, e o frio mordia mais que qualquer lâmina. Mas eu continuei. Guiado pelas sombras das histórias proibidas.

Encontrei a entrada entre os espinhos negros de uma floresta morta. O portal era de pedra antiga, esculpido com runas queimadas. Não havia tranca, nem porta.

Só o vazio.

E entrei.

O cheiro de poeira e incenso antigo grudou na minha pele.

— Eu sabia que viria — disse uma voz rouca, ao fundo.




Acendi minha tocha.

E lá estava ele.

Sentado entre crânios.

Mahrak.

O último Ceifador.

Tinha o corpo coberto de cicatrizes. Braços largos. A pele parecia couro ressecado. Mas os olhos... os olhos eram vivos demais. Brilhavam com algo que não era deste mundo.

— Terkon, servo da Chama Branca — ele disse meu nome como se cuspisse.

— Mahrak — me ajoelhei. Não por respeito. Mas porque o peso da presença dele era demais.

— O que quer?

— O menino. Ele despertou.

Silêncio.

Só o som da minha respiração irregular. Ele não moveu um músculo.

— A Chama Branca mentiu — continuei. — Ele não estava morto. Só adormecido. Preso dentro de um corpo. Um receptáculo.

— E agora...?

— Agora ele caminha. E deixa cinzas.

Mahrak se levantou devagar. Parecia uma estátua viva.

— O mundo esqueceu o medo. Agora, vai lembrar.

— Você sabia, não é?

— Eu ajudei a selá-lo. Enterramos o coração da besta no corpo de um recém-nascido. Juramos jamais contar. Eu fugi do juramento. Os outros morreram por ele.

Ele caminhou até uma parede coberta de peles marcadas.

Tocou uma runa antiga. Ela brilhou.

Uma porta se abriu.

Lá dentro... repousava a Lança do Fim.

O osso de uma vértebra de dragão. Tão negro quanto a noite sem lua. Em seu centro, pulsava uma luz escarlate — como um coração ainda batendo.

— Vai ajudar?

Ele riu.

Um som feio. Que doía nos ouvidos.

— Eu não vou salvar esse mundo. Mas posso ajudar a matá-lo direito.

— Por quê?

Ele se virou, os olhos queimando de lembrança.

— Porque o céu está azul, Terkon. E isso não é um sinal de esperança. É um aviso.

Seguimos naquela mesma noite. Só nós dois.

Mahrak dizia que o menino estava indo para o Coração da Terra — o lugar onde a mãe-dragão caiu. O túmulo de fogo.

— É lá que ele vai se fundir — explicou. — O corpo e a alma. O menino e a besta. Depois disso, não haverá mais como separar.

— E se chegarmos a tempo?

— Matamos o menino.

— E o dragão?

— Com sorte... morre junto.

— E se não der tempo?

Mahrak olhou para o céu azul, agora sem nuvens.

— Então você vai desejar que nunca tenha nascido.

Seguimos o rastro de cinzas por vales calcinados, cavernas abertas pela força do calor, florestas onde os troncos ainda ardiam dias após o fogo passar.

A terra do menino se desfazia sob os próprios passos.

Quando acampamos, a lua parecia uma moeda rachada.

Mahrak afiava a lança com uma pedra negra, e eu apenas observava as mãos dele, firmes como se não tivessem dúvidas. Diferente das minhas.

— E se ele não quiser lutar? — perguntei.

— Vai lutar. Nem que seja contra ele mesmo.

— E se for forte demais?

Mahrak cuspiu no chão.

— Então você corre. Eu fico.

Ficamos em silêncio. Por um tempo, só o estalar de uma fogueira fraca.

Ele olhou pra mim, mas não com desprezo — com pena.

— Você ainda acredita que dá pra salvar ele.

— Talvez.

— Isso vai te matar.

— Já estou morto faz tempo.

Ele assentiu.

Pela primeira vez, me respeitou.

A última trilha era feita de vidro.

O chão onde Kael havia passado havia se fundido. Um caminho literal até o Coração.

Aquela era a entrada pro fim de todas as eras.

O ar começou a vibrar.

Cheiro de enxofre.

E o som...

Asas.

Não vou descrever o som.

Você não entenderia.

Não era som de animal. Nem de tempestade.

Era como se o próprio tempo se rasgasse pra deixar algo maior atravessar.

Mahrak parou. Fechou os olhos.

— Ele tá perto.

— Quanto?

Ele apontou o queixo adiante.

— A cratera vai nos engolir antes do amanhecer.

No alto da colina, vi.

O céu já estava completamente azul. Sem nuvem. Sem vento. O silêncio... era grosso. Como carne crua.

E no centro do vale rachado... ele.

Kael.

Parado.

Sozinho.

O chão ao redor tremia em ondas. Como se a terra respirasse com ele.

As costas dele estavam nuas.

E nelas... as marcas estavam se abrindo.

Escamas brotavam. Lentamente. Pretas. Lisas como óleo.

Ele virou o rosto.

E sorriu.

Não de felicidade.

De certeza.

Mahrak apertou a lança.

— Tá pronto?

Não respondi.

Apenas respirei fundo.

E desci a colina.

Ainda não era o fim.

Ainda não.


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