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Mostrando postagens de abril, 2025

Capítulo 05: As cinzas do último fogo

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Eu não nasci. Fui cuspido. Minha mãe morreu com as mãos ainda entre as pernas, tentando segurar o que o mundo queria expulsar. Meu pai? Nunca o vi. Diziam que era um ceifador velho, ou um espírito das montanhas — ou um dos próprios dragões disfarçados de homem. Talvez tudo isso fosse verdade. Talvez nada fosse. Fui criado entre cinzas. Uma vila encravada no deserto de farod, onde o frio entra nos ossos antes mesmo do ar chegar nos pulmões. Ali, as crianças aprendiam cedo que chorar era desperdício de calor. Eu apanhava por respirar alto. E por sonhar. Me lembro de uma vez em que disse, com cinco invernos de idade, que vira um dragão nos céus, feito sombra entre nuvens. A velha que me acolhia me deu com o cabo da colher de ferro. — Não se fala o nome das pragas — ela sussurrou. O sangue escorreu. A lembrança ficou. Tinha algo em mim que os outros sentiam. Medo, talvez. Ou presságio. A natureza também sabia. Os lobos não me atacavam. Os corvos ...

Capítulo 04: O Céu Azul

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 A pedra gemeu sob minhas botas enquanto eu corria. Não por medo. Nunca por medo. O medo é para os fracos. Para os esquecidos. Para os hereges que ardem sob o toque da nossa chama sagrada. Eu corri porque a verdade escorria por entre nossos dedos — e ela vestia a pele suja de um escravo. — PARA OS PORTÕES! — minha voz cortou o corredor, fazendo os acólitos estremecerem. — ELE ESTÁ FUGINDO! Atrás de mim, os sinos ainda rugiam seu canto de alerta. O eco do bronze sagrado vibrava nas entranhas da Fortaleza da Redenção como tambores de guerra. O corredor fedia a fumaça e sangue fresco. O rastro dele ainda estava quente. Não era possível... ninguém escapava daquele lugar. Nem com as pernas, nem com a alma. Mas ele... aquele menino... não era um menino . Os olhos... quando me fitou, era como se cem gerações me julgassem de volta. Desci as escadarias e empurrei a porta com o ombro. A luz me feriu os olhos — a luz . Mas não a usual, cinzenta, pálida, morta. O céu... — Em no...

Capitulo 03: Cinzas no Peito

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Quando se nasce no pó, o primeiro cheiro que se aprende a amar é o da terra seca misturada ao suor velho. Não aquele suor limpo de quem trabalhou. Mas o ranço ácido que se acumula em pele que nunca viu sabão. Queimada pelo sol, rasgada por açoite. A segunda coisa é o som do couro batendo na carne. E não importa o quão forte você tente esquecer — a memória da dor tem um cheiro. Ferro quente. Sangue fresco. Pele queimada. Naquela manhã, senti tudo isso antes mesmo do sol subir. O chão de terra batida ainda estava úmido da urina noturna de alguém que não conseguiu segurar. — Levanta, porco! — a voz do capataz entrou cortando como lâmina cega. Rasgada. Grossa. Cheia de raiva que não era só dele. Ele carregava a fúria dos que mandavam em cima, e despejava sobre nós como se fossem baldes de óleo fervente. O bastão de ferro bateu nas grades com estalo seco. Depois, no meu ombro. Uma. Duas vezes. Eu não gritei. Aprendi cedo que grito é convite. Choro? Chorar é luxo. Fazia anos que não chorava....

Capítulo 02: A Chama Branca

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  Eu nunca vi o céu azul. Não sei como é sentir o calor do sol tocando a pele sem a barreira sufocante das nuvens. O mundo acima sempre foi um amontoado de cinza e sombra, um teto de chumbo que pairava sobre nossas cabeças, pesado, opressor, como se o próprio firmamento tivesse desistido de existir. Desde que nasci, o céu foi um cadáver enforcado sobre a terra, oscilando sem vida, sem brilho. Dizem que já foi diferente. Os velhos, aqueles que sobreviveram à Queda, falam de um tempo em que a luz era real. Um tempo em que a manhã nascia em ouro líquido, derramando-se sobre campos verdes como esmeraldas. Diziam que os ventos não eram carregados de poeira e fuligem, mas de perfumes de flores e resina de árvores imensas, que o mundo era banhado em cores que a Chama nos ensinou a esquecer. O azul, por exemplo. Ouvi histórias sobre ele. Um vasto mar invertido, suspenso no alto, sem limites, profundo como um sonho. Algumas lendas diziam que os dragões nadavam nesse mar de ar, que...