Capítulo 05: As cinzas do último fogo
Eu não nasci.
Fui cuspido.
Minha mãe morreu com as
mãos ainda entre as pernas, tentando segurar o que o mundo queria expulsar.
Meu pai? Nunca o vi.
Diziam que era um ceifador
velho, ou um espírito das montanhas — ou um dos próprios dragões disfarçados de
homem.
Talvez tudo isso fosse
verdade.
Talvez nada fosse.
Fui criado entre cinzas.
Uma vila encravada no
deserto de farod, onde o frio entra nos ossos antes mesmo do ar chegar nos
pulmões.
Ali, as crianças aprendiam
cedo que chorar era desperdício de calor.
Eu apanhava por respirar
alto.
E por sonhar.
Me lembro de uma vez em que
disse, com cinco invernos de idade, que vira um dragão nos céus, feito sombra
entre nuvens.
A velha que me acolhia me
deu com o cabo da colher de ferro.
— Não se fala o nome das
pragas — ela sussurrou.
O sangue escorreu.
A lembrança ficou.
Tinha algo em mim que os
outros sentiam.
Medo, talvez.
Ou presságio.
A natureza também sabia.
Os lobos não me atacavam.
Os corvos me seguiam.
E quando completei sete
invernos, o chão tremia quando eu sonhava.
Naquela idade, fui levado
pelos Homens de Terra — os que andavam cobertos de barro e peles, os Olhos do
Mundo.
Eles não pediram permissão.
A velha me entregou sem
olhar pra trás.
Fui conduzido ao Ostamar.
Lá, disseram que eu era
escolhido.
Escolhido para ceifar.
Escolhido para matar o que
nunca deveria ter nascido.
Fui treinado com aço.
Com ossos.
Com fome.
A primeira lâmina que
peguei era maior que meu braço.
A primeira criatura que
matei... era meu reflexo na água.
Me disseram que antes de
enfrentar um dragão, o ceifador precisava matar o menino que foi.
Demorou.
Mas um dia…
Ele morreu.
E eu nasci.
Mahrak, o ceifador.
Mahrak, o sem sono.
Mahrak, o que falava com os
mortos e escutava os ossos da terra.
O mundo lá fora ardia.
Os dragões reinavam.
E nós… éramos só sombras
afiadas, à espreita, esperando o momento de cortar o céu.
Mas tudo começou ali.
Naquela vila esquecida.
Na noite em que o vento
assobiava entre tábuas podres e eu nascia, berrando contra o frio.
O mundo tentou me matar no
primeiro sopro.
E falhou.
Os céus queimaram antes que qualquer profecia ousasse
avisar.
Nenhum pergaminho, nenhum sussurro de oráculo previu a ruína
que se abateu sobre nós. Vieram com a aurora, mas não com luz — com sombra
viva, com fogo que rugia mais alto que trovões. O céu não era mais azul.
Tornou-se uma carne viva, aberta em brasas.
Quando o Primeiro Dragão caiu, seu sangue virou rio e amaldiçoou as
montanhas. Eu vi. Corria vermelho e grosso, como se o próprio mundo estivesse
sangrando por dentro. Árvores secaram ao seu toque. As montanhas negras
gritaram. E eu... eu não virei o rosto.
Estava lá. Vi os reinos virarem ossos. Vi muralhas de mil anos se transformarem
em cinza em questão de segundos. Homens orgulhosos, arquitetos de impérios, não
deixaram nada além de gritos.
Vi reis ajoelhados implorando por morte. Não por salvação. Morte. Pura e
simples. Um deles — Velkhar, Rei dos Sete Portos — chegou a beijar minha lâmina
antes que eu lhe desse fim. "Obrigado", murmurou, com os olhos
derretidos.
Vi cidades flutuarem... e depois desabarem. E não era beleza. Era terror.
Era a realidade dobrada, estilhaçada pelas asas de monstros que tinham nome
antes do tempo. Vi torres subirem aos céus como dedos de pedra. E então, como
se os próprios deuses soprassem sobre elas, elas ruíam. E chovia pó e ossos.
Foi então que nós surgimos. Os Ceifadores. Lâminas vivas, nascidas da
própria Terra. Nossas armas não eram forjadas — eram despertas. Os antigos
chamavam de os Ossos da Terra. Espadas negras como breu, com
batimentos próprios. Eu ouvia o da minha quando dormia. Nunca soava em paz.
Nossa missão não era glória. Nunca foi. Era extinção.
Cada dragão abatido nos deixava mais vazios. Cada alma que derrubávamos com
nossas mãos era um espelho que se estilhaçava dentro de nós. Mas ninguém
parava. Nenhum de nós ousava hesitar.
Eu ceifei sete. Sete nomes apagados da memória do mundo, mas gravados em
minha carne. Quando fecho os olhos, vejo todos. Me olham. Não com ódio. Mas com
compaixão. Como se soubessem o que eu estava me tornando.
O mais velho deles... ah, aquele merdinha... caiu sobre as Montanhas do
Norte. O corpo inteiro do monstro cobria três vales. Quando a lâmina afundou
entre as vértebras, ele sussurrou:
— Vocês são mais feras
que nós.
Fiquei ali. Sem respirar. Senti a verdade naquelas palavras como uma farpa
envenenada. Por dentro, algo rachou. Mas continuei. Porque era isso que
fazíamos.
A cada batalha, meu corpo se partia. Mas minha alma, essa apodrecia. Eu via
a pele endurecer, os músculos falharem, os olhos se tornarem pedra. Mas a
alma... não. A alma apenas apodrecia em silêncio, como fruta esquecida.
A Terra rachava com nossos passos. Cada Ceifador deixava marcas que nunca
fechavam. O mundo nos temia. Não como salvadores. Mas como prenúncio de fim.
E então, no último dia da guerra, ele apareceu.
O Dragão Dourado.
O maior de todos. O último. Mas não rugia. Não queimava. Chorava.
Sim. Chorava.
Eu me lembro do silêncio que se fez. Era como se até o vento recuasse. O
bicho pousou em meio às ruínas das Montanhas de Cinzas. As pedras derretidas
não o tocavam. Seu brilho era... calmo. Belo, até. A dor dele encheu o campo
como uma névoa espessa.
— Por que... vocês ainda lutam? — ele disse. E aquilo... era voz? Era mais
como música de lamento.
Os outros Ceifadores prepararam suas lâminas. Mas eu fiquei parado. Pela
primeira vez... eu fiquei parado.
— Mahrak. — Chamou meu nome, mesmo sem conhecê-lo. — Você... ainda tem
escolha.
— Não. — sussurrou Elenor, a mais cruel entre nós. — Você não vê? Isso é
truque, ilusão.
Mas eu vi nos olhos dele. Não havia engano. Só fim. Só cansaço. E...
esperança.
Foi a primeira desavença entre mim e os outros. Eles queriam selar o dragão.
Torturá-lo. Arrancar o nome do fogo de sua garganta. Mas ele se adiantou.
Fez um pacto. Usando a velha magia. Ofereceu-se por completo,
para que a alma de sua raça não fosse perdida.
E então... veio o bebê.
Não sei de onde. Uma mulher envolta em cinzas o carregava. Os olhos da
criança eram estrelas mortas. Silenciosas.
— Prendam o dragão no coração dele. — ordenou Elenor. — Selaremos o fogo na
carne.
Fizeram o ritual. O céu escureceu. O chão gemeu. E então...
Nasceu a maldita... Ops... Abençoada Chama Branca.
Eu não celebrei. Eu só caí de joelhos.
E pela primeira vez... chorei junto com o dragão.
O céu ainda fumegava quando tudo terminou.
Mas a guerra, não.
A guerra nunca termina de verdade. Ela apenas muda de forma.
O Dragão Dourado, em seu último ato, fez o que nenhum outro ousara:
entregou-se. Não pela própria vida — isso já não importava mais — mas pelo que
restava de sua espécie. Pela centelha. Pelo fogo.
Selaram sua alma no coração de um recém-nascido.
Eu vi. A criatura antiga ergueu as garras já murchas e soprou sua essência
no corpo da criança. O bebê gritou. Mas não de dor. Era como se a própria
criação tivesse sido reiniciada ali, naquele choro.
Uma mulher — ninguém sabia seu nome — correu com ele nos braços. O chão
ainda tremia. As cinzas cobriam tudo como neve.
Ela atravessou cem léguas de terra morta.
Rios de sangue seco. Planícies apodrecidas. Estradas tomadas por sombras que
não tinham dono. A cada passo, o bebê ardia em seus braços, mas ela não o
soltou.
E então, finalmente, encontrou um vilarejo.
— Salve-o. — ela implorou. Sua voz era uma corda desfiando. Os joelhos
cederam. — Ele carrega o último fogo.
Eu estava ali. Entre os meus. moradores de rostos tão frios quanto as pedras
que esmagávamos sob os pés. Todos olharam para mim. Sempre eu.
Aproximei-me da criança. Havia sangue nos lençóis. E brasas.
Mas os olhos…
Vi os olhos do bebê.
Era como olhar para a boca de um vulcão.
Quentes. Infinitos. Silenciosos.
Havia algo ali que me reconhecia.
E me odiava.
Os moradores começaram a murmurar.
— É um ovo.
— Vai eclodir.
— É só uma casca.
— Mate antes que cresça.
Não vi compaixão em nenhum deles. Só medo.
E o medo, entre ceifadores, sempre sangra em fúria.
— Acabemos com isso. — disse a governante do vilarejo. — Antes que seja
tarde.
Eu hesitei. Pela primeira vez.
A palma da minha mão tremia.
Mas não foi o medo.
Foi o bebê. Ele olhou para mim... e sorriu.
Um sorriso velho. Antigo demais para aquele rosto minúsculo.
Era o sorriso de alguém que já tinha morrido mil vezes.
O mesmo que vi no Dragão Dourado, antes dele se desfazer em luz.
Colocaram a criança sobre o altar de pedra.
O mesmo onde selamos os outros. Onde drenamos os nomes dos dragões até que nada
restasse.
A lâmina foi colocada em minha mão.
Pesava.
Como se o mundo todo tivesse se debruçado sobre ela.
— Mahrak... — sussurrou a governante. — Termine o ciclo.
O ciclo.
Como se a morte fosse um círculo perfeito.
Como se nada jamais pudesse escapar.
Como se até mesmo o último fogo devesse ser apagado.
Mas algo dentro de mim rompeu.
Um fio que me mantinha preso à função, à ordem, à obediência.
Minha mão tremeu.
E então… joguei a lâmina.
Ela ricocheteou no altar com um som seco.
Todos congelaram.
— O que está fazendo? — rugiu Dheren, o Ceifador do Oeste.
Não respondi.
Peguei a criança.
O fogo dela tocou meu peito. Marcou minha carne.
Mas eu não gritei.
Eu corri.
Atravessamos as muralhas de pedra.
Saltei as cavernas de cinza.
Fugimos pelos desertos criados por nossos próprios pecados.
Me tornei traidor.
Caçado.
Caçador dos caçadores.
A cada passo, sentia o peso do pequeno corpo nos meus braços.
Mas era mais que isso.
Carregava ali dentro a maldição de toda uma era.
E o mundo...
O mundo nunca me perdoou.
Fugi para o Subsolo.
Para os lugares onde o tempo esqueceu os nomes.
Onde nem os vermes se atrevem a rastejar, onde o ar cheira a pedra morta e os
ecos sussurram histórias que ninguém ousa lembrar.
Lá, cavei minha prisão com os próprios dedos.
Unha por unha, pele contra rocha, carne contra silêncio.
Não havia luz.
Só o som do meu próprio sangue tentando esquecer o que fiz.
As paredes me falavam.
Mentiam.
Chamavam-me de herói, de monstro, de pai, de assassino.
Depende da hora.
Depende do sonho.
E os crânios — os sete dragões que matei — riam de mim à noite.
Eu os levei comigo.
Enterrei cada um nas entranhas dessa caverna maldita, como se pudesse vigiar
meu próprio passado.
Mas eles sempre me encaravam.
Sempre riam.
— “Mais fera que nós…” — sussurrou o mais velho.
E eu sabia que era verdade.
O menino cresceu longe de mim.
Longe das mãos que o seguraram quando o mundo quis matá-lo.
Foi criado por mulheres de luto.
Silenciosas. Rígidas como túmulos.
E por homens sem rosto, os que preferem viver sem nomes para não chamar atenção
da morte. Os escravizados.
Mas eu o sentia.
Mesmo ali, soterrado sob mil pedras.
Cada vez que ele sonhava... Eu queimava.
O fogo dentro dele ainda era o mesmo.
Mas mais denso.
Mais... acordado.
E toda vez que o calor me atravessava, meu corpo lembrava da lâmina que
recusei, da escolha que rasgou os ceifadores ao meio.
Ainda assim… não voltei.
Fiquei.
Por covardia, talvez.
Por remorso, com certeza.
Mas não porque não quis.
Oh, como quis.
A cada inverno que o mundo esquecia de derreter, a cada batida no fundo do
peito, eu ouvia o chamado do sangue.
O chamado dele.
Mas eu sabia.
Sabia o que ele se tornaria.
Kael não era só um menino.
Nunca foi.
Ele era casca.
Era recipiente.
Era prisão.
E agora, o que habita dentro dele acordou.
A chama arde dentro dele.
Não aquela chama dos bardos, bonita e cheia de esperança.
Não.
Falo da chama que consome.
A que transforma rei em cinza e montanha em abismo.
O último dragão...
Não dorme mais.
Ele se mexe. Se estica. Sussurra.
E a cada dia, toma mais do corpo do menino.
Mais da alma.
Mais da voz.
Agora ele me busca.
Não como aliado.
Não como pai.
Mas como alvo.
Como o último obstáculo.
Como o último laço com o que restou de humanidade.
E eu?
Sou o que sempre fui:
Um ceifador quebrado, esperando o fim.
Mas se ele vier…
Se Kael vier até mim com olhos de fogo e dentes de estrela…
...eu não vou fugir.
Porque agora sei.
Essa história não é sobre redenção.
Nunca foi.
É sobre fogo.
Sobre fim.
Sobre o que deixamos queimar para que algo novo nasça das cinzas.
E se tiver que ser eu...
...então que a terra me devore antes que eu grite.

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