Capítulo 01: Um Império Esquecido

O fogo há muito se apagou.

As montanhas, antes imponentes, onde os antigos reis alados repousavam sobre picos escarpados, agora eram apenas carcaças de pedra e ossos carbonizados. Os ventos uivavam entre os desfiladeiros, carregando o cheiro amargo de cinzas e carne queimada. O tempo havia transformado o mundo em uma lápide fria, e o céu, outrora cortado por asas imensas e sombras gloriosas, tornara-se um véu pálido de luto.

Eu me lembro de tudo.

Lembro-me de quando a terra tremia sob nossas asas. Lembro-me do som dos tambores humanos, um batimento surdo de guerra, e do clarão das suas lâminas forjadas com nosso próprio sangue. Lembro-me de quando o fogo era mais do que uma arma – era uma promessa. Uma promessa de poder, de domínio, de eternidade.

Mas a eternidade foi roubada.

Eles nos chamavam de tiranos, de monstros. Diziam que éramos bestas insaciáveis, que esmagávamos reinos como se fossem formigueiros. Mas quem pode julgar a natureza de um deus? Os humanos nunca compreenderam a grandiosidade do que éramos. Para eles, nossa presença era um fardo, um lembrete de sua fraqueza. E foi essa fraqueza que os tornou implacáveis.

A Ordem dos Ceifadores surgiu das sombras como um câncer, crescendo silenciosamente enquanto nós dormíamos sobre nossos tesouros e ossos antigos. Seu conhecimento era profano, retirado das entranhas do próprio mundo. Magia negra, feitiçaria tecida com promessas e sacrifícios. Mas pior do que isso foram as armas que forjaram.

Espadas e lanças banhadas em nosso sangue.

O ferro da terra nunca pôde nos ferir, mas nosso próprio fogo, nossa própria essência, tornou-se nossa ruína. Cada lâmina carregava o cheiro de um irmão morto, de uma irmã queimada viva e destilada em metal. Quando nos perfuravam, não era apenas a carne que se rompia, mas a alma. O fogo dentro de nós se contorcia, traído, e se extinguia em um lamento silencioso.

Eu os vi caçarem os maiores entre nós. Vi Isthar, o Terror do Norte, ser arrastado para baixo por correntes encharcadas em feitiçaria. Sua pele prateada se partiu como gelo, e seu rugido final foi engolido pelo riso dos homens. Vi Nemerion, o Eterno, ter suas asas de ébano arrancadas e pregadas como troféus nos muros de um castelo humano. Seus olhos, que haviam visto a aurora dos tempos, foram arrancados das órbitas e mergulhados em veneno, transformados em amuletos de guerra.

Eles não queriam apenas nos destruir. Queriam nos extinguir.

E então, um a um, caímos.

O céu ficou silencioso. O fogo morreu.

O silêncio reinou sobre o mundo, um manto sufocante de ausência.

As montanhas, antes cheias de vida e poder, tornaram-se ruínas de um império esquecido. O vento que outrora carregava o eco dos nossos rugidos agora soprava através dos esqueletos de uma era morta. O fogo, que antes moldava reinos e rasgava os céus, havia sido reduzido a brasas escondidas sob cinzas antigas.

Os humanos celebraram sua vitória com altares erguidos sobre nossos ossos. Cantaram hinos à sua própria supremacia, beberam vinho nas taças moldadas de nossas garras e vestiram peles arrancadas de nossos corpos ainda quentes. Seus reis adornaram suas coroas com nossos dentes, e os Ceifadores desapareceram nas sombras, como se nunca tivessem existido.

Mas não foram apenas os dragões que pereceram.

Algo nos humanos também morreu com nossa queda.

A magia tornou-se fraca. A terra, que antes vibrava com energia primordial, agora era uma carcaça seca e exausta. Os rios, antes alimentados pelo sopro dos antigos, começaram a minguar. O céu perdeu seu brilho escarlate ao anoitecer, e as estrelas, que dançavam em constelações moldadas pelos nossos ancestrais, desapareceram uma a uma.

Eles não perceberam no início.

O ouro que tanto cobiçavam começou a se tornar impuro, corroído por algo invisível. As lavouras murcharam, as colheitas falharam, e pragas se espalharam pelas cidades de pedra que haviam erguido sobre nosso sangue. Crianças nasciam sem vida, e aquelas que sobreviviam tinham olhos vazios, sem o brilho dos antigos contos.

Os sacerdotes clamaram aos deuses, mas os deuses não responderam.

Os reis tentaram encobrir o medo com aço e decretos, mas o medo rastejava pelos becos e fortalezas, espalhando-se como uma doença incurável. Homens e mulheres murmuravam nas sombras sobre uma maldição esquecida, sobre o preço que haviam pago por sua arrogância.

E então, a escuridão veio.

Não como a noite tranquila que acalma e envolve. Mas como um manto sufocante, espesso e sem fim. Uma sombra sem dono, que rastejava sob portas trancadas, se infiltrava nas fendas dos muros e apagava a luz das lamparinas.

Os primeiros a desaparecer foram os sacerdotes. Seus templos amanheciam vazios, os altares cobertos de um lodo negro, o ar impregnado com um cheiro metálico e podre.

Depois foram os nobres. As grandes famílias que governavam do alto de suas torres sumiram sem rastros, deixando apenas jantares inacabados e lareiras queimando em casas vazias.

Os Ceifadores, aqueles que haviam exterminado meu povo, tentaram lutar contra aquilo que rastejava no escuro.

Mas não havia nada para cortar. Nada para queimar.

A lâmina forjada em nosso sangue não brilhou dessa vez.

E um a um, até os Ceifadores foram engolidos.

O mundo se tornara um túmulo, e os homens perceberam, tarde demais, que os dragões não eram apenas governantes ou tiranos.

Nós éramos o coração pulsante da existência.

E sem um coração, tudo apodrece.

O fim dos dragões não trouxe liberdade.

Os humanos acreditaram, por um breve momento, que haviam conquistado seu próprio destino. Mas a verdade era outra: sem os dragões para subjugar, voltaram-se uns contra os outros.

O fogo da guerra não se extinguiu com o último rugido no céu — ele apenas encontrou novos corpos para consumir.

Os reinos que antes se uniram sob a promessa de uma era sem bestas caíram sobre si mesmos como lobos famintos. O ferro que antes matava dragões agora cortava gargantas humanas. Cidades arderam, vilarejos foram reduzidos a cinzas, e o solo encharcou-se não mais com o sangue dos antigos deuses, mas com o dos próprios homens.

E então veio a escravidão.

Antes, enquanto os dragões dominavam, a servidão era simples: os humanos entregavam tributos, ouro, terras e corpos, em troca de proteção — ou para evitar o extermínio. Mas os dragões, por mais temíveis que fossem, não precisavam de chicotes ou correntes. Não precisavam de mercados fétidos onde mães eram separadas de seus filhos e homens eram marcados como gado.

Os dragões tomavam o que queriam e deixavam o resto viver.

Os homens, não.

Com o fim dos antigos senhores alados, os humanos criaram seus próprios tiranos. Reis se tornaram mercadores de carne, príncipes transformaram-se em donos de campos de trabalho, e até os camponeses mais miseráveis aprenderam que podiam possuir alguém com o preço certo. A escravidão que antes era um fardo ocasional se tornou uma engrenagem essencial da nova era.

As ruas dos grandes reinos estavam lotadas de desgraçados, vendidos e comprados como mercadoria. Homens acorrentados arrastavam pedras para erguer castelos que nunca habitariam. Mulheres eram forçadas a aquecer camas que nunca seriam suas. Crianças nasciam já condenadas ao jugo, seus nomes apagados e suas vidas moldadas pelo ferro e pela dor.

E quanto mais o mundo decaía, mais cruéis os homens se tornavam.

As marcas em ferro quente eram entalhadas na pele sem piedade. Os castigos eram brutais, corpos quebrados e descartados como lixo. Os mais poderosos divertiam-se transformando homens em cães, forçando-os a rastejar e lutar até a morte por um pedaço de pão. O que antes era um instinto de sobrevivência tornou-se espetáculo.

Os sacerdotes, que antes clamavam por justiça, silenciaram ou foram silenciados. Os estudiosos, que prometiam um mundo melhor, foram comprados por moedas manchadas de sangue. Os antigos reis, que haviam se curvado aos dragões, tornaram-se monstros piores do que aqueles que temiam.

E os Ceifadores, os assassinos de deuses, haviam desaparecido.

Não estavam lá para impedir.

Não estavam lá para lutar.

Aqueles que dizimaram os dragões agora eram nada mais do que ecos na escuridão.

E assim o mundo continuou a apodrecer.

Sem dragões.

Sem liberdade.

Apenas correntes.

E eu, último dos dragões, enterrei minha fúria num coração de uma criança, enclausurado por uma magia antiga, adormeci, esperando o dia em que o mundo sangraria mais uma vez.

Meu nome foi esquecido. Meus irmãos jazem em ruínas. Meu fogo se apagou. Mas eu ainda existo.

Quando a queda dos dragões se tornou inevitável, lutei até o último suspiro. Meu rugido rasgou o céu, e meu fogo queimou exércitos inteiros. Mas até mesmo os mais grandiosos caem quando não há mais ninguém ao seu lado.

Foi então que eles vieram—os últimos Ceifadores. Diferentes daqueles que portavam lâminas de nosso sangue, esses eram antigos, cobertos de véus negros e palavras proibidas. Não buscavam glória nem riqueza. Eram servos do equilíbrio, ou ao menos foi assim que se nomearam.

— Um mundo sem dragões é um mundo em colapso, — disse um deles, uma mulher de pele pálida e olhos ocos como a noite sem estrelas. — Mas um mundo com dragões é um mundo sem humanos.

Eles haviam aprendido que destruir os dragões seria sua ruína. Mas já era tarde demais para voltar atrás. E assim, traçaram uma última solução: selar o último de minha espécie.

Eles não usaram correntes. Não usaram lanças banhadas em nossa essência. O que forjaram foi algo mais terrível—um ritual de aprisionamento, selando minha alma dentro do coração de uma criança humana.

Não sei de onde ela veio. Não sei seu nome. Apenas vi seus olhos quando fui puxado para dentro dela. Eram jovens, ingênuos, mas carregavam o peso de um destino que ela jamais escolheria.

Os Ceifadores gravaram símbolos arcanos em sua pele, nas palmas de suas mãos, em sua espinha, em sua testa.

Cânticos ancestrais ecoaram nas câmaras subterrâneas onde me aprisionaram.

Uma luz negra me rasgou do meu próprio corpo, esvaziando-me, me puxando para dentro daquele pequeno casulo de carne frágil.

Senti cada fibra do meu ser se contorcer enquanto a criança tremia e gritava, sua alma se fundindo com a minha.

Então, o silêncio.

Eu não podia me mover. Não podia queimar. Não podia rugir.

Só podia esperar.

A criança cresceu, e meu espírito crescia com ela. Mas ela não sabia.

O mundo o viu como um menino qualquer, talvez nascida de alguma linhagem mística, um escravo, uma aberração. Nunca souberam que dentro dele dormia a última chama do tempo esquecido.

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